Já está na mão
O remédio pra solidão
Não sei se falo ou calo
12 de nov. de 2013
11 de nov. de 2013
16 de set. de 2013
31 de ago. de 2013
Velhidades
Ok, eu não consigo deixar o Rascunhos descansar em paz no Paraíso dos blogs. Volta e meia apareço por aqui e perturbo seu sono fúnebre. No que dependesse de mim, essas perturbações seriam mais frequentes, mas ainda sou um aprendiz na arte da Necroblogmancia.
Se, por acaso, houver alguém aí (eco:aí-aí-aí...), gostaria de informá-l@ que este que vos fala não escreve e posta textos num blog há bastante tempo. No entanto, nunca foi de meu interesse abandonar o ofício. Desse modo, planejo postar no Rascunhos com mais frequência (o que não quer dizer muita coisa) no futuro próximo. Seria bastante satisfatório ter meus textos lidos e comentados novamente.
Grato pela atenção, espero que nos encontremos em breve.
Italo
2 de out. de 2012
Fogo
O calor era insuportável. Seu rosto se banhava em suor
enquanto as chamas aumentavam. Os camponeses a observavam; uns pareciam tristes,
mas outros gritavam e jogavam pedras. Ela tinha cuidado dos doentes, das
mulheres grávidas, tinha preparado infusões, dado conselhos... Mesmo assim,
eles a puseram numa fogueira. As lágrimas em seu rosto se confundiam com o
suor. A dor cortante arrancava-lhe gritos horríveis. Sua vida se transformava
em cinzas. Já não tinha esperanças quando começou a chover.
Todos na vila a conheciam, era uma espécie de
curandeira. Muitos a buscavam quando estavam doentes e ela recebia a todos.
Tinha uns quarenta anos e ainda era bela. Quando o conde da região visitou a
aldeia, ficou encantado com sua beleza. Ofereceu-lhe um bom dinheiro para que
cedesse a seus favores. A senhora, no entanto, recusou-se a fazê-lo e o agrediu
quando ele tentou de todos os modos tirar sua roupa. Sentindo-se humilhado, o
nobre ordenou que a prendessem.
Como não era cristã, o conde a acusou de ser bruxa e
pediu ao padre da vila que a condenasse por bruxaria. O velho sacerdote tinha
boas relações com seu senhor, por isso fez o possível para preparar o
necessário para a condenação. No entanto, o padre adoeceu uns dias depois e
morreu.
Passou-se quase um mês para a Igreja enviar um substituto. O novo sacerdote era muito jovem e tinha ambição de crescer na
hierarquia eclesiástica. Assim que chegou à vila, lhe informaram sobre a
situação da bruxa. Por isso, analisou as anotações de seu antecessor e seguiu
com a execução, pois desejava ficar em bons termos com o conde.
A chuva veio muito tarde. Embora a água tenha apagado o
fogo, as queimaduras da mulher já eram muito profundas. Ela tinha sido uma
pessoa gentil que tentou ajudar a todos o máximo que pôde, mas nos últimos
instantes de vida seu coração se enegreceu. O ódio se apossou dela e ela
amaldiçoou toda a aldeia, sobretudo o jovem sacerdote. Finalmente, o fogo de
sua vida e a nobreza de sua alma se apagaram.
***
Hoje, o Rascunhos completa(ria?) 7 anos de existência. Por isso, achei interessante compartilhar um texto por aqui. Apesar de carecer um pouco de fidelidade histórica, acho que o conto ficou legal. Espero que gostem. Até logo.
24 de jun. de 2012
Notícias sobre o blog
Saudações, leitor(es) do Rascunhos
Como se pode notar, faz bastante tempo que este blog está em coma. Salvo por um ou outro espasmo involuntário, não há sinal de que ele volte à atividade de outrora.
De qualquer modo, o autor do Rascunhos está, com uma frequência razoável, postando em dois outros blogs:
1) O Almanacaria, um projeto em conjunto com alguns comparsas onde falamos sobre cinema, literatura, quadrinhos e adjacências - além de apresentar algumas produções próprias.
2) O No te cuento, um blog de contos próprios em língua espanhola.
Quem se interessar, por favor, visite um dos blogs mencionados. É possível que haja alguma postagem ocasional no Rascunhos de textos que não se encaixem nos perfis dos blogs acima, mas não prometo nada.
Sem mais até o momento, despeço-me.
Até logo.
- Italo
Como se pode notar, faz bastante tempo que este blog está em coma. Salvo por um ou outro espasmo involuntário, não há sinal de que ele volte à atividade de outrora.
De qualquer modo, o autor do Rascunhos está, com uma frequência razoável, postando em dois outros blogs:
1) O Almanacaria, um projeto em conjunto com alguns comparsas onde falamos sobre cinema, literatura, quadrinhos e adjacências - além de apresentar algumas produções próprias.
2) O No te cuento, um blog de contos próprios em língua espanhola.
Quem se interessar, por favor, visite um dos blogs mencionados. É possível que haja alguma postagem ocasional no Rascunhos de textos que não se encaixem nos perfis dos blogs acima, mas não prometo nada.
Sem mais até o momento, despeço-me.
Até logo.
- Italo
8 de jun. de 2012
Amando no treinamento
Recentemente, meu amigo Amando foi aprovado no concurso da Petrobrás e em sua homenagem fiz essa tirinha.
30 de abr. de 2011
Cylon Party
ALERTA DE SPOILERS
Esse conto é baseado na série de TV Battlestar Galactica e, cronologicamente, se passaria por volta do episódio 10 da 3ª Temporada. Se preferir, volte quando tiver assistido até esse episódio. xD
*********
- Você tem que admitir que é um pouco estranho. - afirmou Baltar enquanto caminhavam.
- O que há de estranho nisso? - replicou a Seis. Por que não podemos comemorar também?
Os dois caminhavam pelos corredores da basestar. A Seis usava um belo vestido vermelho com um generoso decote e as luzes nas paredes faziam seu cabelo reluzir como ouro. Gaius Baltar fez o possível para estar apresentável, mas sua roupa estava levemente amassada e a barba e os cabelos, mal-cuidados; ainda assim, ele não parecia um prisioneiro.
- Tecnicamente, os membros de sua raça não nascem, são construídos, fabricados - explicou. Hoje não é o dia do aniversário dela, é sua... data de fabricação.
- Não seja tão insensível, Gaius! - respondeu impaciente. Hoje nos lembra o dia em que D'anna passou a existir, a pensar, a sentir, a viver... É algo especial.
- Um aniversário é uma coisa única para cada ser humano, é uma celebração dedicada a um indivíduo, não a um número de lote: "0003".
- É isso o que você pensa? - retrucou com raiva. Eu sou apenas mais uma Seis? Só uma cópia de um produto?
- E-eu não...
- Isso é o que você pensa de todas nós, não? Não apenas cylons, mas fêmeas em geral.
- I-isso não é o que eu quis - tentou explicar-se -, Caprica, me deixe...
- Exato. Caprica! Eu não sou apenas outra Seis. Além disso, nem todas as D'annas foram ativadas no mesmo dia.
- Eu não... sabia disso. Interessante.
Levou algum tempo até eles chegarem a ampla sala onde ocorreria a festa. O chão e as paredes eram de um cinza metálico e, exceto pelos cylons que ali se encontravam, o lugar estava vazio. Gaius observou curioso a ausência de mesas, cadeiras e comida e se perguntou como seria uma festa cylon.
Havia várias Seis e Três, alguns Dois e Oito. No centro, D'anna conversa com um irmão Cavil, Boomer e um Leoben quando Caprica e Gaius chegaram.
- Olá, D'anna. Meus parabéns. - desejou Caprica com um sorriso.
- Minhas... hmmm felicitações, D'anna. - disse Gaius.
- Eu lhe trouxe um presente. - disse a Seis entregando um pequeno frasco à aniversariante. É um perfume que eu trouxe de Caprica.
D'anna abriu o frasco e inspirou profundamente os vapores que ele exalava. Suas feições mudaram, indo do espanto ao sorriso. Seu olfato nunca recebera um estímulo como aquele. Ela ficou impressionada e não soube o que dizer.
- Obrigada, Seis. Eu nunca senti um cheiro tão bom.
- Que desperdício de tempo - comentou bruscamente o irmão Cavil. Qual é o sentido de ter um frasco frágil com esse líquido se você pode simplesmente projetar a sensação de um bom odor direto para sua mente?
- Não seja ridículo, irmão - respondeu D'anna. Como eu poderia projetar um perfume desses se eu nunca o senti antes?
- Por que não começamos logo com isso? - sugeriu Cavil impaciente.
Em poucos segundos os cylons estavam segurando as mãos uns dos outros num curioso arranjo losangular. Depois, fecharam os olhos de forma solene. Gaius achou que a cena parecia algum tipo de oração silenciosa até ele notar mudanças nas feições de cada um deles: sorrisos, murmuros, suspiros... Até o irmão Cavil esboçou um sorriso eventualmente.
A projeção levara os cylons para lugares muito diferentes da vazia sala metálica onde seus corpos estavam. O alto de uma montanha, uma ilha deserta, um bosque frutífero, uma cidade barulhenta... Eles comeram, beberam, conversaram, dançaram... se divertiram. Esqueceram por algumas horas que estavam em guerra. E sempre os acompanhava a bela fragância do perfume de Caprica.
Gaius Baltar observara a cena muito interessado, imaginava-se o que exatamente eles faziam durante a projeção. Seu interesse, contudo, durou apenas alguns minutos. D'anna pedira pessoalmente que duas Oito lhe fizessem companhia e aquele era um modelo que ele ainda não tivera a chance de... conhecer muito bem. Não demorou muito a convencê-las a levá-lo aos seus aposentos, de modo que os três também tiveram sua própria festa.
_________________________
Esse é meu post do mês de abril para a Liga Narrativa. O tema é "Festas/Bailes" (provavelmente o último com '/' xD). É, obviamente, um fanfic de Battlestar Galactica e quem não viu nada da série provavelmente deve ter se perguntado "Que PORRA foi isso?". Sinto muito... mas a culpa também é sua! Quem mandou não ter visto Battlestar!? Shame on you!
Posts de outros membros da Liga:
Jagunço - Diálogos Feéricos
Esse conto é baseado na série de TV Battlestar Galactica e, cronologicamente, se passaria por volta do episódio 10 da 3ª Temporada. Se preferir, volte quando tiver assistido até esse episódio. xD
*********
- Você tem que admitir que é um pouco estranho. - afirmou Baltar enquanto caminhavam.
- O que há de estranho nisso? - replicou a Seis. Por que não podemos comemorar também?
Os dois caminhavam pelos corredores da basestar. A Seis usava um belo vestido vermelho com um generoso decote e as luzes nas paredes faziam seu cabelo reluzir como ouro. Gaius Baltar fez o possível para estar apresentável, mas sua roupa estava levemente amassada e a barba e os cabelos, mal-cuidados; ainda assim, ele não parecia um prisioneiro.
- Tecnicamente, os membros de sua raça não nascem, são construídos, fabricados - explicou. Hoje não é o dia do aniversário dela, é sua... data de fabricação.
- Não seja tão insensível, Gaius! - respondeu impaciente. Hoje nos lembra o dia em que D'anna passou a existir, a pensar, a sentir, a viver... É algo especial.
- Um aniversário é uma coisa única para cada ser humano, é uma celebração dedicada a um indivíduo, não a um número de lote: "0003".
- É isso o que você pensa? - retrucou com raiva. Eu sou apenas mais uma Seis? Só uma cópia de um produto?
- E-eu não...
- Isso é o que você pensa de todas nós, não? Não apenas cylons, mas fêmeas em geral.
- I-isso não é o que eu quis - tentou explicar-se -, Caprica, me deixe...
- Exato. Caprica! Eu não sou apenas outra Seis. Além disso, nem todas as D'annas foram ativadas no mesmo dia.
- Eu não... sabia disso. Interessante.
Levou algum tempo até eles chegarem a ampla sala onde ocorreria a festa. O chão e as paredes eram de um cinza metálico e, exceto pelos cylons que ali se encontravam, o lugar estava vazio. Gaius observou curioso a ausência de mesas, cadeiras e comida e se perguntou como seria uma festa cylon.
Havia várias Seis e Três, alguns Dois e Oito. No centro, D'anna conversa com um irmão Cavil, Boomer e um Leoben quando Caprica e Gaius chegaram.
- Olá, D'anna. Meus parabéns. - desejou Caprica com um sorriso.
- Minhas... hmmm felicitações, D'anna. - disse Gaius.
- Eu lhe trouxe um presente. - disse a Seis entregando um pequeno frasco à aniversariante. É um perfume que eu trouxe de Caprica.
D'anna abriu o frasco e inspirou profundamente os vapores que ele exalava. Suas feições mudaram, indo do espanto ao sorriso. Seu olfato nunca recebera um estímulo como aquele. Ela ficou impressionada e não soube o que dizer.
- Obrigada, Seis. Eu nunca senti um cheiro tão bom.
- Que desperdício de tempo - comentou bruscamente o irmão Cavil. Qual é o sentido de ter um frasco frágil com esse líquido se você pode simplesmente projetar a sensação de um bom odor direto para sua mente?
- Não seja ridículo, irmão - respondeu D'anna. Como eu poderia projetar um perfume desses se eu nunca o senti antes?
- Por que não começamos logo com isso? - sugeriu Cavil impaciente.
Em poucos segundos os cylons estavam segurando as mãos uns dos outros num curioso arranjo losangular. Depois, fecharam os olhos de forma solene. Gaius achou que a cena parecia algum tipo de oração silenciosa até ele notar mudanças nas feições de cada um deles: sorrisos, murmuros, suspiros... Até o irmão Cavil esboçou um sorriso eventualmente.
A projeção levara os cylons para lugares muito diferentes da vazia sala metálica onde seus corpos estavam. O alto de uma montanha, uma ilha deserta, um bosque frutífero, uma cidade barulhenta... Eles comeram, beberam, conversaram, dançaram... se divertiram. Esqueceram por algumas horas que estavam em guerra. E sempre os acompanhava a bela fragância do perfume de Caprica.
Gaius Baltar observara a cena muito interessado, imaginava-se o que exatamente eles faziam durante a projeção. Seu interesse, contudo, durou apenas alguns minutos. D'anna pedira pessoalmente que duas Oito lhe fizessem companhia e aquele era um modelo que ele ainda não tivera a chance de... conhecer muito bem. Não demorou muito a convencê-las a levá-lo aos seus aposentos, de modo que os três também tiveram sua própria festa.
_________________________
Esse é meu post do mês de abril para a Liga Narrativa. O tema é "Festas/Bailes" (provavelmente o último com '/' xD). É, obviamente, um fanfic de Battlestar Galactica e quem não viu nada da série provavelmente deve ter se perguntado "Que PORRA foi isso?". Sinto muito... mas a culpa também é sua! Quem mandou não ter visto Battlestar!? Shame on you!
Posts de outros membros da Liga:
Jagunço - Diálogos Feéricos
23 de dez. de 2010
Amor pulsante
Os olhares se cruzam
O sangue pulsa
Imagem, contemplação, desejo
O sangue pulsa
Aproximação, nervosismo, ansiedade
O sangue pulsa
Respiração, cheiro, toque
O sangue pulsa
Provocação, sussurro, arrepio
O sangue pulsa
Dedos, carícias, massagem
O sangue pulsa
Imagem, contemplação, desejo
O sangue pulsa
Aproximação, nervosismo, ansiedade
O sangue pulsa
Respiração, cheiro, toque
O sangue pulsa
Provocação, sussurro, arrepio
O sangue pulsa
Dedos, carícias, massagem
O sangue pulsa
Pele, lábio, saliva
O sangue pulsa
Pernas, braços, entrelaços
Pele, lábio, saliva
O sangue pulsa
Pernas, braços, entrelaços
O sangue pulsa
Unhas, dentes, língua
O sangue pulsa e pulsa
Força, atrito, calor
O sangue pulsa e pulsa
Dor, gemido, prazer
O sangue pulsa e pulsa e pulsa
Suor, lágrima, grito
O sangue pulsa e pulsa e pulsa e...
.
Unhas, dentes, língua
O sangue pulsa e pulsa
Força, atrito, calor
O sangue pulsa e pulsa
Dor, gemido, prazer
O sangue pulsa e pulsa e pulsa
Suor, lágrima, grito
O sangue pulsa e pulsa e pulsa e...
.
.
.
.
.
.
...pulsaSuspiro, cansaço, sorriso
O sangue pulsa
2 de out. de 2010
R.I.P.
Era um fim de tarde nublado, naquele ano a primavera não fora particularmente vibrante. Pairava no ar um silêncio nostálgico, interrompido vez por outra pelo som do vento agitando as folhas de arbustos e árvores.
Havia poucas pessoas naquele jardim dos mortos, uma delas caminhou a passos hesitantes até uma lápide e parou. Carregava um arranjo de flores nas mãos e o pesar sobre os ombros. Balbuciou coisas sem sentido, indignou-se, lamentou-se, culpou-se... e chorou. Pôs o arranjo junto ao túmulo, enxugou as lágrimas do rosto e disse com a voz ainda embargada:
- Adeus.
Os passos se foram e o jardim tornou-se mudo de novo. O sol ia se pondo no oeste enquanto as flores murchavam diante do túmulo. Gravada na superfície de pedra, havia uma pequena inscrição:
Rascunhos de uma Mente
2005-2010
... FIM
16 de jul. de 2010
Prisão Perpétua
Era noite, estava escuro, mas Alex podia avistar a floresta a certa distância; não estava muito certo porque, mas era pra lá que deveria ir. Caminhou tranquilamente, recebendo de bom grado o vento frio que soprava daquele lugar; estranhamente, perambular pela mata àquela hora parecia algo normal. Os passos seguiram despreocupados até que a floresta ficou muito próxima e a escuridão se adensou. Procurou nos bolsos e descobriu que trouxera consigo uma lanterna, bastou um pequeno “click” para a paisagem se iluminar.
Não eram árvores, nem plantas ou arbustos... eram pessoas! Centenas e centenas de cadáveres amontoados formando bizarras esculturas semelhantes a árvores. Alguns corpos estavam mutilados, outros tinham a pele rasgada ou pareciam virados ao avesso. Muitos deles eram fundidos uns nos outros como siameses - era difícil dizer onde terminava um e começava o outro.
Perturbado, Alex tentou segurar o vômito, mas foi em vão. Por mais que quisesse, também não conseguia fechar os olhos - as mórbidas criaturas pareciam encará-lo e em suas faces paralisadas haviam expressões de dor, tristeza, raiva e medo. Com passos vacilantes, o pobre homem avançou um pouco mais pela floresta até encontrar, em outra “árvore”, a figura de uma mulher com o estômago aberto e uma criança projetando-se assustadoramente para fora.
Alex correu o mais rápido que pôde, tudo o que queria era sair o mais rápido possível dali. Por um instante, ele pensou ter visto uma pessoa de preto sentada sobre um "galho" de braços e pernas, mas o medo não lhe permitiu olhar com mais cuidado. Quando o fôlego faltou, caiu de joelhos com a respiração ofegante.
“Não podem ser pessoas, não pode ser real...” Convenceu-se de que deviam ser apenas estátuas, criadas por alguém de mau gosto para assustar quem passasse por ali. Ousou encarar uma delas para provar que estava certo: observou por alguns minutos o pilar de corpos à sua frente até notar que o peito de um deles arqueava levemente. “Não é possível... estaria respirando?”
Enchendo-se de coragem, aproximou-se do cadáver e com a mão trêmula tocou-lhe o peito. A pele era fria ao toque, mas Alex pôde sentir claramente uma pulsação vindo de dentro. Estava vivo! Naquele momento, ele teve certeza de que estavam todos vivos. Os rostos passaram a fitá-lo nos olhos quando ele descobriu a verdade.
Possuído de medo, Alex correu ainda mais rápido do que antes, mas braços e pernas projetavam-se no caminho para deter o seu avanço. Algo agarrou o seu pé com força, fazendo-lhe cair ao chão e, por mais que se debatesse, era inútil resistir ao mar de mãos que lhe apertavam, arranhavam e puxavam... Alex sentiu que logo se tornaria um deles, preso para sempre naquele bosque macabro.
E então, ele acordou. Estava ofegante, suado e com as imagens ainda vívidas em sua mente. Olhou pela janela e viu o céu de Londres... estava em seu apartamento afinal. Saiu da cama e foi ao banheiro, encarou o espelho e viu um rosto cansado e com olheiras. “Que sonho maluco!”
- Meoooow.
Alex deu um pulo ao ouvir o estranho miado. Procurou a origem do som e tudo que viu foi um vulto passando de relance pela janela, parecia um grande gato preto. O coração batia disparado, mas ele tentava se recompor. “Calma, calma. Não há nada de errado, foi só um gato... e só um sonho.” Voltou-se novamente ao espelho e... havia um corvo em seu ombro!
Tentou espantá-lo, mas a criatura não se mexia. Na verdade, não havia pássaro algum em seu ombro, mas a imagem no espelho mostrava claramente a sinistra ave fitando-lhe ameaçadoramente. Antes que Alex pudesse correr, o corvo começou a bicar-lhe furiosamente, cavando buracos por todo seu rosto como uma tesoura afiada. Sentiu o sangue quente escorrendo enquanto pele, carne e olhos eram cortados e rasgados como papel. A dor dilacerante só aumentava, fazendo Alex gritar e contorcer-se... em vão.
...até que ele acordou mais uma vez. E assim prosseguia o Eterno Despertar, o ciclo infinito de pesadelos ao qual estava preso Alex Burgess. Este fora seu castigo por ter ousado aprisionar o Senhor dos Sonhos por muitos anos...
____________
Inspirografia:
____________
Esse é meu texto de Junho (obviamente atrasado) da Liga Narrativa. O tema desse mês foi “Masmorras, calabouços, prisões”. Segue abaixo o link para os textos dos outros membros:
Não eram árvores, nem plantas ou arbustos... eram pessoas! Centenas e centenas de cadáveres amontoados formando bizarras esculturas semelhantes a árvores. Alguns corpos estavam mutilados, outros tinham a pele rasgada ou pareciam virados ao avesso. Muitos deles eram fundidos uns nos outros como siameses - era difícil dizer onde terminava um e começava o outro.
Perturbado, Alex tentou segurar o vômito, mas foi em vão. Por mais que quisesse, também não conseguia fechar os olhos - as mórbidas criaturas pareciam encará-lo e em suas faces paralisadas haviam expressões de dor, tristeza, raiva e medo. Com passos vacilantes, o pobre homem avançou um pouco mais pela floresta até encontrar, em outra “árvore”, a figura de uma mulher com o estômago aberto e uma criança projetando-se assustadoramente para fora.
Alex correu o mais rápido que pôde, tudo o que queria era sair o mais rápido possível dali. Por um instante, ele pensou ter visto uma pessoa de preto sentada sobre um "galho" de braços e pernas, mas o medo não lhe permitiu olhar com mais cuidado. Quando o fôlego faltou, caiu de joelhos com a respiração ofegante.
“Não podem ser pessoas, não pode ser real...” Convenceu-se de que deviam ser apenas estátuas, criadas por alguém de mau gosto para assustar quem passasse por ali. Ousou encarar uma delas para provar que estava certo: observou por alguns minutos o pilar de corpos à sua frente até notar que o peito de um deles arqueava levemente. “Não é possível... estaria respirando?”
Enchendo-se de coragem, aproximou-se do cadáver e com a mão trêmula tocou-lhe o peito. A pele era fria ao toque, mas Alex pôde sentir claramente uma pulsação vindo de dentro. Estava vivo! Naquele momento, ele teve certeza de que estavam todos vivos. Os rostos passaram a fitá-lo nos olhos quando ele descobriu a verdade.
Possuído de medo, Alex correu ainda mais rápido do que antes, mas braços e pernas projetavam-se no caminho para deter o seu avanço. Algo agarrou o seu pé com força, fazendo-lhe cair ao chão e, por mais que se debatesse, era inútil resistir ao mar de mãos que lhe apertavam, arranhavam e puxavam... Alex sentiu que logo se tornaria um deles, preso para sempre naquele bosque macabro.
E então, ele acordou. Estava ofegante, suado e com as imagens ainda vívidas em sua mente. Olhou pela janela e viu o céu de Londres... estava em seu apartamento afinal. Saiu da cama e foi ao banheiro, encarou o espelho e viu um rosto cansado e com olheiras. “Que sonho maluco!”
- Meoooow.
Alex deu um pulo ao ouvir o estranho miado. Procurou a origem do som e tudo que viu foi um vulto passando de relance pela janela, parecia um grande gato preto. O coração batia disparado, mas ele tentava se recompor. “Calma, calma. Não há nada de errado, foi só um gato... e só um sonho.” Voltou-se novamente ao espelho e... havia um corvo em seu ombro!
Tentou espantá-lo, mas a criatura não se mexia. Na verdade, não havia pássaro algum em seu ombro, mas a imagem no espelho mostrava claramente a sinistra ave fitando-lhe ameaçadoramente. Antes que Alex pudesse correr, o corvo começou a bicar-lhe furiosamente, cavando buracos por todo seu rosto como uma tesoura afiada. Sentiu o sangue quente escorrendo enquanto pele, carne e olhos eram cortados e rasgados como papel. A dor dilacerante só aumentava, fazendo Alex gritar e contorcer-se... em vão.
...até que ele acordou mais uma vez. E assim prosseguia o Eterno Despertar, o ciclo infinito de pesadelos ao qual estava preso Alex Burgess. Este fora seu castigo por ter ousado aprisionar o Senhor dos Sonhos por muitos anos...
____________
Inspirografia:
- Sandman
- D&D, mais especificamente "As Infinitas Camadas do Abismo"
- Fatal Frame 2: Crimson Butterfly
- D&D, mais especificamente "As Infinitas Camadas do Abismo"
- Fatal Frame 2: Crimson Butterfly
____________
Esse é meu texto de Junho (obviamente atrasado) da Liga Narrativa. O tema desse mês foi “Masmorras, calabouços, prisões”. Segue abaixo o link para os textos dos outros membros:
Allana (Brainstorm) – Grilhões
Daniel (Dois contos) - In vitro
Erick Patrick (RPG do Mestre) – Lá no Fundo | Morrendo pela Boca
Juca 999 (Juca´s Blog) – Advogado do Diabo
21 de mai. de 2010
Justa vingança
O vento soprava frio naquela manhã de outono, o barulho das folhas secas abafava o som dos pequenos animais à procura de abrigo e comida. O cheiro de terra molhada e as poças de lama denunciavam que chovera na noite anterior, o que seria um inconveniente para alguém perambulando pela floresta. Mas, para um caçador experiente, nem mesmo as intempéries da natureza o separariam de sua presa.
Dinc subiu numa árvore cuidadosamente para não chamar a atenção do monstro, acomodou-se em um galho mais resistente e apertou os olhos para vê-lo melhor. A fera dormia em seu covil, o ronco ruidoso era audível mesmo àquela distância, o caçador imaginou que a criatura se alimentara a pouco tempo e estava repousando. Calculou que poderia acertá-la dali com uma flecha, bastaria um tiro preciso para por fim à besta.
A ansiedade se apoderou de Dinc, esperara muito por uma oportunidade como aquela; seguira os rastros da criatura por semanas, mantendo-se sempre a uma distância segura, aguardando o momento certo para alvejá-la. Sempre soube que não poderia enfrentá-la de perto, ela era mais rápida e bem mais forte do que ele, muitos de sua tribo haviam cometido esse erro e estavam mortos. "Todos mortos", era exatamente por isso que ele estava ali: para honrar a memória daqueles que foram assassinados pela criatura trazendo-lhe justiça.
O caçador tirou uma flecha da aljava e embebeu sua ponta com veneno, fora o xamã da tribo que preparara aquela mistura especialmente para esta ocasião. Dinc, então, pegou o arco e testou a corda, era o mesmo com o qual treinara durante dias inteiros antes de começar esta jornada. Com arco e flecha em mãos, retesou a corda e mirou; a mão direita tremia levemente ao lado do seu ouvido enquanto gotas de suor formavam-se em seu rosto. Com o olhar fixo no alvo, ele disparou.
A seta atravessou o ar fazendo um zunido baixo até atingir o estômago da criatura. Não houve urros de dor ou expressões de agonia, apenas um espasmo rápido e o sangue escorrendo. Dinc quase não acreditou: sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, seguido de uma grande sensação de alívio. O caçador teve vontade de ir até o corpo e arrancar uma prova de seu feito, mas não era seguro: logo haveriam outras criaturas perigosas próximo ao corpo. Teve que se contentar apenas com a visão de sua presa abatida. Desceu a árvore cuidadosamente e partiu de volta pra casa.
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A notícia rapidamente se espalhara por todas as cidades ao longo da Estrada Oeste: o famoso mercenário Redgar, conhecido como "o exterminador de goblins", fora assassinado com uma flecha envenenada na estalagem onde estava hospedado. Muitos suspeitaram que tenha sido um acerto de contas de algum marido enciumado, já que Redgar tinha um fraco incorrigível por mulheres. O mercenário fora enterrado com honrarias no condado de Riverstone devido às "contribuições que fizera para deixar as estradas mais seguras".
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Dinc foi recebido como um herói em sua tribo: todos lhe cumprimentaram e agradeceram, alguns ofereceram presentes e outros se curvaram enquanto ele passava. Na noite seguinte, houve um grande banquete: comida, bebida e diferentes versões de seu feito não faltaram na mesa. O chefe da tribo fez um grande discurso sobre a coragem do caçador e ofereceu-lhe sua filha como esposa. A história logo se espalhou de uma tribo para outra e em poucas semanas não havia um goblin num raio de muitas milhas que não conhecesse a história de Dinc, o goblin justiceiro.
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Este é meu texto do mês de maio para a Liga Narrativa - à qual me "associei" recentemente. Cada mês é sugerido um tema para os integrantes criarem um texto sobre ele. O tema do mês de maio foi "herói".
Segue abaixo os textos de outros membros sobre esse tema:
- Sobre fantasmas e heróis
- Liga Narrativa – E se?
- Liga Narrativa (Mai – Heroi): O Cara
- Outro dia de trabalho
Dinc subiu numa árvore cuidadosamente para não chamar a atenção do monstro, acomodou-se em um galho mais resistente e apertou os olhos para vê-lo melhor. A fera dormia em seu covil, o ronco ruidoso era audível mesmo àquela distância, o caçador imaginou que a criatura se alimentara a pouco tempo e estava repousando. Calculou que poderia acertá-la dali com uma flecha, bastaria um tiro preciso para por fim à besta.
A ansiedade se apoderou de Dinc, esperara muito por uma oportunidade como aquela; seguira os rastros da criatura por semanas, mantendo-se sempre a uma distância segura, aguardando o momento certo para alvejá-la. Sempre soube que não poderia enfrentá-la de perto, ela era mais rápida e bem mais forte do que ele, muitos de sua tribo haviam cometido esse erro e estavam mortos. "Todos mortos", era exatamente por isso que ele estava ali: para honrar a memória daqueles que foram assassinados pela criatura trazendo-lhe justiça.
O caçador tirou uma flecha da aljava e embebeu sua ponta com veneno, fora o xamã da tribo que preparara aquela mistura especialmente para esta ocasião. Dinc, então, pegou o arco e testou a corda, era o mesmo com o qual treinara durante dias inteiros antes de começar esta jornada. Com arco e flecha em mãos, retesou a corda e mirou; a mão direita tremia levemente ao lado do seu ouvido enquanto gotas de suor formavam-se em seu rosto. Com o olhar fixo no alvo, ele disparou.
A seta atravessou o ar fazendo um zunido baixo até atingir o estômago da criatura. Não houve urros de dor ou expressões de agonia, apenas um espasmo rápido e o sangue escorrendo. Dinc quase não acreditou: sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, seguido de uma grande sensação de alívio. O caçador teve vontade de ir até o corpo e arrancar uma prova de seu feito, mas não era seguro: logo haveriam outras criaturas perigosas próximo ao corpo. Teve que se contentar apenas com a visão de sua presa abatida. Desceu a árvore cuidadosamente e partiu de volta pra casa.
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A notícia rapidamente se espalhara por todas as cidades ao longo da Estrada Oeste: o famoso mercenário Redgar, conhecido como "o exterminador de goblins", fora assassinado com uma flecha envenenada na estalagem onde estava hospedado. Muitos suspeitaram que tenha sido um acerto de contas de algum marido enciumado, já que Redgar tinha um fraco incorrigível por mulheres. O mercenário fora enterrado com honrarias no condado de Riverstone devido às "contribuições que fizera para deixar as estradas mais seguras".
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Dinc foi recebido como um herói em sua tribo: todos lhe cumprimentaram e agradeceram, alguns ofereceram presentes e outros se curvaram enquanto ele passava. Na noite seguinte, houve um grande banquete: comida, bebida e diferentes versões de seu feito não faltaram na mesa. O chefe da tribo fez um grande discurso sobre a coragem do caçador e ofereceu-lhe sua filha como esposa. A história logo se espalhou de uma tribo para outra e em poucas semanas não havia um goblin num raio de muitas milhas que não conhecesse a história de Dinc, o goblin justiceiro.
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Este é meu texto do mês de maio para a Liga Narrativa - à qual me "associei" recentemente. Cada mês é sugerido um tema para os integrantes criarem um texto sobre ele. O tema do mês de maio foi "herói".
Segue abaixo os textos de outros membros sobre esse tema:
- Sobre fantasmas e heróis
- Liga Narrativa – E se?
- Liga Narrativa (Mai – Heroi): O Cara
- Outro dia de trabalho
Keywords:
Fantasia Medieval,
Goblins,
Herói,
Liga Narrativa,
Vingança
11 de abr. de 2010
Hunter Files: Ghost or Madness?
Eu trabalhava numa grande companhia de seguros, tinha uma posição boa na empresa e perspectivas de crescimento. Estava a 5 anos com a Jane, tínhamos um relacionamento estável e pretendíamos nos casar em 1 ou 2 anos no máximo – eu era louco por aquela mulher! Minha vida parecia bem controlada, eu me sentia realizado na vida pessoal e profissional. Foi aí que começaram as aparições.
Eram visões de uma mulher pálida, coberta de hematomas e com o pescoço pendendo para o lado. Ela aparecia repentinamente, pedia por ajuda e sumia. A princípio eu achei que fosse apenas coisa da minha cabeça, que eu estava cansado demais, precisando descansar. Mas as visões vieram de novo e de novo, sempre a mesma mulher, sempre pedindo por vingança.
Contei à Jane e ao meu irmão o que estava acontecendo, mas eles diziam que eu estava estressado, que precisava tirar umas férias. A princípio pensei que eles deviam estar certos, cheguei a tirar uma semana de folga, me afastei da cidade e da vida tumultuada do escritório. As coisas pareciam ter melhorado, mas logo que eu voltei, as aparições retornaram e mais fortes. Antes a criatura causava apenas medo e calafrios por alguns segundos, depois passou a fazer as coisas tremerem, atirar objetos em mim e me causar pesadelos.
Eu já não conseguia dormir, trabalhar ou comer. Suplicava por ajuda àqueles próximos a mim, mas só recebia um olhar de reprovação e estranheza. Eu ainda lembro... ainda lembro quando Jane veio ao meu apartamento certa noite... jogou a aliança em mim e disse que eu tinha sido o maior erro de sua vida.
Meu irmão agiu logo, fez a única coisa que uma pessoa “sensata” poderia fazer em sua posição: internou-me numa clínica psiquiátrica. O inferno ainda estava para começar.
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Havia todo tipo de... gente maluca na clínica: alguns eram bobos e inofensivos, mas outros pareciam espertos e psicóticos. Havia gritos sempre: alguns apenas queriam sair dali, enquanto outros clamavam por sua família e eu gritava para que ela parasse, para que a maldita coisa que me perseguia me deixasse em paz.
Os médicos tentaram diferentes tratamentos em mim, mas eu não reagia bem a nenhum deles. Às vezes passava dias dormindo e mesmo quando acordado ficava dopado por várias horas. Nada disso adiantava, nada disso fazia ela parar. Estranhamente, em meio a esse ambiente angustiante, eu fiz uma nova amizade.
Seu nome era Michael e na maior parte do tempo ele tinha um olhar distante e balbuciava coisas sem sentido. Mas havia uma lucidez penetrante sob aqueles olhos inertes. Às vezes, quando estávamos a sós, ele falava coisas sobre espíritos e demônios; no começo eu não dei muita atenção às suas palavras, mas ele parecia entender o que estava acontecendo comigo e se solidarizava com minha situação.
Mike me ensinava e enganar as enfermeiras, a não tomar os comprimidos que nos dopavam, a falar aos médicos o que eles queriam ouvir. Os seus conselhos e sua companhia tornavam a vida menos insuportável naquele lugar. Eu não acreditava em tudo que ele dizia, principalmente quando falava que o governo estava atrás dele porque ele “sabia demais”, mas ele era o único com quem eu podia contar.
Certo dia, eles simplesmente levaram o Michael embora, disseram que estavam transferindo-lhe para outra clínica. Eu me senti péssimo por vários dias, como eu ia conseguir sobreviver àquele inferno sozinho? A idéia de cometer suicídio já havia rondado minha cabeça antes, mas ela nunca tinha parecido tão atraente quanto naqueles dias após o Michael ter sido levado.
Meu psiquiatra mandou me levarem à sua sala certo dia. Ele disse que ia tentar um novo tratamento comigo, achava que naquele momento, sem a “má influência” do Mike, eu estaria mais suscetível ao efeito dos medicamentos. Eu já não me importava mais, não guardava mais os comprimidos sob a língua, nem enganava as enfermeiras – estava convencido de que aqueles remédios me matariam pouco-a-pouco. Pra minha surpresa, as visões pararam pouco depois.
----
As coisas só melhoraram nos meses seguintes: eu me sentia mais disposto, meu sono estava se regularizando e eu ganhava peso. O novo tratamento tinha dado certo: eu estava curado! O médico dera algum nome esquisito para minha doença, mas eu não me importava, aquilo era passado e eu só queria me esquecer daquele grande pesadelo. Após um ano e meio naquela clínica, eu finalmente voltava pra realidade.
Thomas me ajudou muito com meu... recomeço. Me arranjou um carro usado e bancou o primeiro mês de aluguel de um apartamento no subúrbio da cidade. Poucas semanas depois, consegui um emprego numa loja de conveniências perto de casa: o salário era pouco, mas dava pra pagar as contas. As coisas caminharam bem nos meses seguintes, minha vida estava se ajeitando aos poucos e eu já começava a traçar planos para o futuro. Tudo parecia bem, até que as aparições voltaram.
Minha vida virou de cabeça pra baixo de novo. Eu tinha me convencido de que estivera doente, de que tudo não passara de alucinações e o tratamento tinha funcionado. Mas não eram alucinações, era tudo real e a criatura voltara a me atormentar.
Eram visões de uma mulher pálida, coberta de hematomas e com o pescoço pendendo para o lado. Ela aparecia repentinamente, pedia por ajuda e sumia. A princípio eu achei que fosse apenas coisa da minha cabeça, que eu estava cansado demais, precisando descansar. Mas as visões vieram de novo e de novo, sempre a mesma mulher, sempre pedindo por vingança.
Contei à Jane e ao meu irmão o que estava acontecendo, mas eles diziam que eu estava estressado, que precisava tirar umas férias. A princípio pensei que eles deviam estar certos, cheguei a tirar uma semana de folga, me afastei da cidade e da vida tumultuada do escritório. As coisas pareciam ter melhorado, mas logo que eu voltei, as aparições retornaram e mais fortes. Antes a criatura causava apenas medo e calafrios por alguns segundos, depois passou a fazer as coisas tremerem, atirar objetos em mim e me causar pesadelos.
Eu já não conseguia dormir, trabalhar ou comer. Suplicava por ajuda àqueles próximos a mim, mas só recebia um olhar de reprovação e estranheza. Eu ainda lembro... ainda lembro quando Jane veio ao meu apartamento certa noite... jogou a aliança em mim e disse que eu tinha sido o maior erro de sua vida.
Meu irmão agiu logo, fez a única coisa que uma pessoa “sensata” poderia fazer em sua posição: internou-me numa clínica psiquiátrica. O inferno ainda estava para começar.
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Havia todo tipo de... gente maluca na clínica: alguns eram bobos e inofensivos, mas outros pareciam espertos e psicóticos. Havia gritos sempre: alguns apenas queriam sair dali, enquanto outros clamavam por sua família e eu gritava para que ela parasse, para que a maldita coisa que me perseguia me deixasse em paz.
Os médicos tentaram diferentes tratamentos em mim, mas eu não reagia bem a nenhum deles. Às vezes passava dias dormindo e mesmo quando acordado ficava dopado por várias horas. Nada disso adiantava, nada disso fazia ela parar. Estranhamente, em meio a esse ambiente angustiante, eu fiz uma nova amizade.
Seu nome era Michael e na maior parte do tempo ele tinha um olhar distante e balbuciava coisas sem sentido. Mas havia uma lucidez penetrante sob aqueles olhos inertes. Às vezes, quando estávamos a sós, ele falava coisas sobre espíritos e demônios; no começo eu não dei muita atenção às suas palavras, mas ele parecia entender o que estava acontecendo comigo e se solidarizava com minha situação.
Mike me ensinava e enganar as enfermeiras, a não tomar os comprimidos que nos dopavam, a falar aos médicos o que eles queriam ouvir. Os seus conselhos e sua companhia tornavam a vida menos insuportável naquele lugar. Eu não acreditava em tudo que ele dizia, principalmente quando falava que o governo estava atrás dele porque ele “sabia demais”, mas ele era o único com quem eu podia contar.
Certo dia, eles simplesmente levaram o Michael embora, disseram que estavam transferindo-lhe para outra clínica. Eu me senti péssimo por vários dias, como eu ia conseguir sobreviver àquele inferno sozinho? A idéia de cometer suicídio já havia rondado minha cabeça antes, mas ela nunca tinha parecido tão atraente quanto naqueles dias após o Michael ter sido levado.
Meu psiquiatra mandou me levarem à sua sala certo dia. Ele disse que ia tentar um novo tratamento comigo, achava que naquele momento, sem a “má influência” do Mike, eu estaria mais suscetível ao efeito dos medicamentos. Eu já não me importava mais, não guardava mais os comprimidos sob a língua, nem enganava as enfermeiras – estava convencido de que aqueles remédios me matariam pouco-a-pouco. Pra minha surpresa, as visões pararam pouco depois.
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As coisas só melhoraram nos meses seguintes: eu me sentia mais disposto, meu sono estava se regularizando e eu ganhava peso. O novo tratamento tinha dado certo: eu estava curado! O médico dera algum nome esquisito para minha doença, mas eu não me importava, aquilo era passado e eu só queria me esquecer daquele grande pesadelo. Após um ano e meio naquela clínica, eu finalmente voltava pra realidade.
Thomas me ajudou muito com meu... recomeço. Me arranjou um carro usado e bancou o primeiro mês de aluguel de um apartamento no subúrbio da cidade. Poucas semanas depois, consegui um emprego numa loja de conveniências perto de casa: o salário era pouco, mas dava pra pagar as contas. As coisas caminharam bem nos meses seguintes, minha vida estava se ajeitando aos poucos e eu já começava a traçar planos para o futuro. Tudo parecia bem, até que as aparições voltaram.
Minha vida virou de cabeça pra baixo de novo. Eu tinha me convencido de que estivera doente, de que tudo não passara de alucinações e o tratamento tinha funcionado. Mas não eram alucinações, era tudo real e a criatura voltara a me atormentar.
14 de out. de 2009
Hunter Files: Prelude
- Com licença.
- Por favor, sente-se, senhor... Macllister. – disse o psicólogo consultando seus arquivos. Como vai?
William tentava mostrar-se confiante, mas sentia-se muito desconfortável – não tivera boas experiências com psicólogos e psiquiatras antes. Observou discretamente o consultório: a pequena mesa tinha pouco mais do que um notebook e um calendário, havia atrás do psicólogo uma estante com vários livros e as paredes tinham quadros de paisagens. Voltou-se novamente para o homem à sua frente e respondeu:
- Eu estou bem, doutor. Mas, sinceramente, eu acho que não deveria estar aqui. Eu não concordo com essa “política da empresa” de obrigar seus funcionários a fazer tratamento psicológico.
- Eu sei, senhor Macllister – respondeu pacientemente o psicólogo. A maioria acha isso estranho no começo mesmo. Entenda que o senhor não está aqui para fazer um tratamento, ninguém está afirmando que há algo de errado com o senhor ou qualquer outro funcionário. A empresa na qual trabalha está interessada em aumentar sua produtividade através da melhoria na eficiência de seus empregados.
- O que tem uma coisa a ver com a outra, doutor? - Will observava curioso, a racionalidade do homem o surpreendera.
- É simples, William, as empresas hoje estão exigindo cada vez mais de seus funcionários: a jornada de trabalho é longa, a demanda por resultados é constante... Tudo isso somado aos problemas pessoais de cada indivíduo costumam causar um estresse – e estresse implica em queda da produtividade. Isso, obviamente, é algo que os empresários não querem. Pesquisas recentes mostram que empregados que tem sessões periódicas com psicólogos apresentam, em média, um desempenho maior que os demais.
- Fascinante! A empresa egoisticamente preocupa-se com o bem-estar dos seus funcionários como forma de aumentar seus lucros.
- Exatamente – disse o Drº Jones sorrindo. Minha dissertação foi sobre esse tema, tenho uma cópia aqui, caso lhe interesse...
- Não, não. Tudo bem, doutor, já estou convencido.
- Ótimo, agora já podemos começar. Fale-me um pouco sobre você.
E Will falou. Seu nome era William Macllister, estava com 29 anos e era um contador. Tinha um irmão mais velho e não se dava bem com o pai, sua mãe morrera num acidente de carro quando ele tinha 15 anos. Era viciado em romances policiais quando adolescente e queria tornar-se um escritor quando adulto, mas acabou entrando na Universidade e formando-se em Contabilidade.
A sessão caminhara por assuntos de pouca importância. Mas, em dado momento, o Drº Jones deu uma olhada em seus arquivos e disse:
- Vi em sua ficha, senhor Macllister, que esteve por mais de 1 ano internado numa clínica psiquiátrica. Não gostaria de falar mais a respeito?
Por um instante, William foi tomado de fúria, teve vontade de esmurrar a cara daquele velho, como podia pedir-lhe para contar sobre algo tão traumático? Mas, tão rápida quanto surgiu, a raiva passou. Will acabara de perceber que havia um som suave no ambiente, parecia música clássica e seu efeito era tranqüilizador – não notara antes, mas havia pequenas caixas de som na estante do psicólogo. Recostou-se na poltrona – e como ela era confortável! – e olhou distraído para o lado: percebeu que um dos quadros não era de paisagens e sim uma réplica da pintura de Michelangelo, “A Criação de Adão”. Parecia que estava num ambiente diferente daquele que vira meia hora atrás quando entrara por aquela porta.
- Muito bem, doutor – respondeu após um longo momento de silêncio. Vou lhe contar tudo a respeito.
- Por favor, sente-se, senhor... Macllister. – disse o psicólogo consultando seus arquivos. Como vai?
William tentava mostrar-se confiante, mas sentia-se muito desconfortável – não tivera boas experiências com psicólogos e psiquiatras antes. Observou discretamente o consultório: a pequena mesa tinha pouco mais do que um notebook e um calendário, havia atrás do psicólogo uma estante com vários livros e as paredes tinham quadros de paisagens. Voltou-se novamente para o homem à sua frente e respondeu:
- Eu estou bem, doutor. Mas, sinceramente, eu acho que não deveria estar aqui. Eu não concordo com essa “política da empresa” de obrigar seus funcionários a fazer tratamento psicológico.
- Eu sei, senhor Macllister – respondeu pacientemente o psicólogo. A maioria acha isso estranho no começo mesmo. Entenda que o senhor não está aqui para fazer um tratamento, ninguém está afirmando que há algo de errado com o senhor ou qualquer outro funcionário. A empresa na qual trabalha está interessada em aumentar sua produtividade através da melhoria na eficiência de seus empregados.
- O que tem uma coisa a ver com a outra, doutor? - Will observava curioso, a racionalidade do homem o surpreendera.
- É simples, William, as empresas hoje estão exigindo cada vez mais de seus funcionários: a jornada de trabalho é longa, a demanda por resultados é constante... Tudo isso somado aos problemas pessoais de cada indivíduo costumam causar um estresse – e estresse implica em queda da produtividade. Isso, obviamente, é algo que os empresários não querem. Pesquisas recentes mostram que empregados que tem sessões periódicas com psicólogos apresentam, em média, um desempenho maior que os demais.
- Fascinante! A empresa egoisticamente preocupa-se com o bem-estar dos seus funcionários como forma de aumentar seus lucros.
- Exatamente – disse o Drº Jones sorrindo. Minha dissertação foi sobre esse tema, tenho uma cópia aqui, caso lhe interesse...
- Não, não. Tudo bem, doutor, já estou convencido.
- Ótimo, agora já podemos começar. Fale-me um pouco sobre você.
E Will falou. Seu nome era William Macllister, estava com 29 anos e era um contador. Tinha um irmão mais velho e não se dava bem com o pai, sua mãe morrera num acidente de carro quando ele tinha 15 anos. Era viciado em romances policiais quando adolescente e queria tornar-se um escritor quando adulto, mas acabou entrando na Universidade e formando-se em Contabilidade.
A sessão caminhara por assuntos de pouca importância. Mas, em dado momento, o Drº Jones deu uma olhada em seus arquivos e disse:
- Vi em sua ficha, senhor Macllister, que esteve por mais de 1 ano internado numa clínica psiquiátrica. Não gostaria de falar mais a respeito?
Por um instante, William foi tomado de fúria, teve vontade de esmurrar a cara daquele velho, como podia pedir-lhe para contar sobre algo tão traumático? Mas, tão rápida quanto surgiu, a raiva passou. Will acabara de perceber que havia um som suave no ambiente, parecia música clássica e seu efeito era tranqüilizador – não notara antes, mas havia pequenas caixas de som na estante do psicólogo. Recostou-se na poltrona – e como ela era confortável! – e olhou distraído para o lado: percebeu que um dos quadros não era de paisagens e sim uma réplica da pintura de Michelangelo, “A Criação de Adão”. Parecia que estava num ambiente diferente daquele que vira meia hora atrás quando entrara por aquela porta.
- Muito bem, doutor – respondeu após um longo momento de silêncio. Vou lhe contar tudo a respeito.
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